Undermining the Surrounding World

João Pinharanda, Museum of Electricity Lisbon 2013

 

This exhibition presents a real and imagined colloquium between the artists and their sources. Let us look at their real protagonists, whom we must immediately join.

Following previous experiences, begun in 1921 and systematised as visual novels from 1929 onwards, Max Ernst, a German established in Paris, connected from the mid-1910s to the avant-garde leading from Dada to Surrealism, edited in 1934 (in 7 chapters distributed in 5 volumes), Une Semaine de Bonté.

Valentine Penrose, a French poet, married from 1925 to Roland Penrose, whom she divorced in 1937, met and frequented the same milieu as Max Ernst, whose husband, the “introducer” of surrealism in Britain, was an intimate friend. In 1936, interested in Hinduism, she left for India where she lived with Alice Rahon Paalen, married to another German surrealist, Wolfgang Paalen. In 1951, again in England, and again living in the house of Roland Penrose and his new companion, the photographer Lee Miller, Valentine composes Dons des Féminines. Following the same meticulous technical solutions of Ernst’s collages, she departs from his the surrealist imagination in search of a radical feminist vision.

Maria Lusitano, lives between Portugal, Sweden and Great Britain and develops her work (where video predominates) as narrativity about the modes of relationship of a female Fictional I with the different levels of History. paula roush, has lived in London for two decades, situates her field of work in the field of artist’s books recovering the techniques of surrealist and pre-surrealist collage, enriching, with this cross-language, the universe of feminist intervention that guides her. It is they who prolong Penrose’s dialogue with Ernst, deepening its languages ​​and themes, reviewing it critically, signaling the political place of contemporary feminist question, including us as a global and not merely an individual entity.

The narrative and seductive fluency of the video (built in the same way as the collage) or the invitation to the formation of the spectators  in creative work sessions are essential pieces of continuity and renewal of the initial legacy. Leading us to “the pure working of thought” (André Breton) and the “systematic estrangement” of the Self, but without the illusion that this dream-field, this “alchemy of the visual image” (Max Ernst) is something that exists outside the History, ideology or position of the genres, wish to give a new meaning to Breton’s program by presenting the first collages of Ernst in 1921: “to use the surrounding world to undermine the surrounding world.”

 

Minar o mundo circundante

João Pinharanda, Museu da Eletricidade Lisboa 2013

 

Estabelece-se nesta exposição um colóquio, real e imaginado, entre as artistas e as suas fontes. Vejamos os seus protagonistas reais, aos quais devemos, imediatamente, juntar-nos.

Na sequência de experiências anteriores, iniciadas em 1921 e sistematizadas como romances visuais a partir de 1929, Max Ernst, alemão estabelecido em Paris, ligado desde meados da década de 10 às vanguardas que conduziram do Dada ao Surrealismo, editou em 1934 (em 7 capítulos distribuídos por 5 volumes), Une Semaine de Bonté.

Valentine Penrose, poeta francesa, casada desde 1925 com Roland Penrose, de quem se divorciou en 1937, conheceu e frequentou os mesmos meios de Max Ernst, de quem o marido, “introdutor” do surrealismo na Grã-Bretanha, era amigo intímo. Em 1936, interessada pelo hinduísmo, partiu para a Índia onde viveu com Alice Rahon Paalen, casada com outro surrealista alemão, Wolfgang Paalen. Em 1951, de novo em Inglaterra, e de novo vivendo na casa de Roland Penrose e da sua nova companheira, a fotógrafa Lee Miller, Valentine compõe Dons des Féminines. Seguindo as mesmas minuciosas soluções técnicas das colagens de Ernst, dele se afasta pelo modo como coloca a vertigem da imaginação surrealista ao serviço de uma visão feminista radical.

Maria Lusitano, vive entre Portugal, a Suécia e a Grã-Bretenha e desenvolve a sua obra (onde predomina o vídeo) como narratividade sobre os modos de relacionamento de um Eu ficcional feminino com os diferentes níveis da História. paula roush, vive em Londres desde há duas décadas, situa o seu campo de trabalho no domínio da construção de livros de artista recuperando as técnicas da colagem surrealista e pré-surrealista, enriquecendo, com esse cruzamento de linguagens, o universo da intervenção feminista que a orienta. São elas que prolongam o diálogo de Penrose com Ernst, aprofundando-o no domínio das linguagens e dos temas, revendo-o criticamente, sinalizando o lugar político da questão feminista nos dias de hoje, nele nos incluindo como entidade global e não meramente individual.

A fluência narrativa e sedutora do vídeo (construído sob os mesmos moldes da colagem) ou o convite à formação dos espectadores, em sessões de trabalho criativo, são peças essenciais da continuidade e renovação do legado inicial. Conduzindo-nos “ao funcionamento puro do pensamento” (André Breton) e ao “estranhamento sistemático” do Eu, mas sem a ilusão de que esse campo onírico, essa “alquimia da imagem visual” (Max Ernst) seja algo que exista fora da história, da ideologia ou da (o)posição dos géneros, desejam dar um novo significado ao programa de Breton ao apresentar as primeiras colagens de Ernst, em 1921: “servir-se do mundo circundante para minar o mundo circundante”.