PAINTBALL FIELD in
Aproximar-­‐nos do Caos 
[com umas lentes que permitam ver melhor o que isso é] 
A project by: Susana Paiva with Escola Informal de Fotografia 
ACERT gallery
May 11- June 29 2019
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Related publication > PAINTBALL FIELD bookwork, 2018

Review of the exhibition in:
APROXIMAR-NOS DO CAOS [COM UMAS LENTES QUE PERMITAM VER MELHOR O QUE ISSO É]
Fascinio da Fotografia
8 de Maio de 2019
LIVROS DE FOTOGRAFIA. ESCRITOS E PORTFOLIO DE A. BRACONS

Aproximar-nos do Caos
[com umas lentes que permitam ver melhor o que isso é]


O vocábulo caos assume hoje múltiplos significados dependendo do contexto em que é aplicado. Foi inicialmente descrito por Hesíodo, na obra Teogonia, datada do século VIII a.C., como sendo o vazio causado pela separação entre a Terra e o Céu a partir do momento de emergência do Cosmos. Etimologicamente provém do Grego Khaos, que quer dizer abismo, vazio, vasto – o que se abre largamente -, no entanto é utilizado de forma corrente associado a estados de confusão, desordem e perturbação. Na Física moderna tem direito a uma Teoria que o define como a instabilidade e imprevisibilidade que pode acontecer em sistemas complexos rigorosamente deterministas.
No livro “O que é a Filosofia?” Gilles Deleuze e Félix Guattari definem três dimensões do Pensamento – a Filosofia, a Ciência e a Arte. Para os autores a Filosofia cria conceitos, a Ciência conhecimento e a Arte afectos e sensações. Defendem que todo o pensamento é relação com o caos e que pensar é dar-lhe consistência. O caos será, portanto, um virtual que é simultaneamente nascimento e esvaziamento de todas as formas possíveis. Assim, e neste contexto, a Arte, sendo uma dimensão do pensamento, terá também ela uma estreita relação com o caos.
Actualmente as sociedades ocidentais vivem obcecadas com a normalização, a padronização – com a rejeição do que é diferente, disruptivo, heterogéneo -, numa tentativa, muitas vezes desesperada, de impor uma ordem que nos afaste do caos. Mas, fugir do caos é impossível, uma vez que este é o início de tudo e está em todo o lado. Segundo Deleuze e Guattari “só a morte vence o caos, só não há caos quando não há nada” e será da convivência com o caos que sairão as possibilidades criativas. “A Arte mergulha no caos para extrair obras, movimentos que eternizam o virtual, os acontecimentos, as forças que nos constituem”, ainda segundo Deleuze e Guattari.
Indo muitas vezes em sentido contrário à normalização e à padronização de conceitos, a Arte, e em especial a arte contemporânea, procura a provocação, a perturbação e a disrupção, numa tentativa de abalar essa ordem habitual das coisas, alimentando-se desta forma do caos como energia, força motriz, que permite ao artista a criação de algo novo. Segundo José Gil “toda a obra de arte, mesmo quando visa reproduzir o mais fielmente possível um original, traz consigo qualquer coisa de novo” e “por pouco que se procure qualquer coisa de novo, o estado mental do artista tende para o caos”.
Poderá então o pensamento de Nietzsche, de que “é preciso o caos para que brote uma estrela”, aplicar-se também à arte? Serão então estas forças e estes movimentos caóticos os geradores e potenciadores das obras de arte e os artistas os sujeitos que as materializam?
E se o artista, pela sua própria condição, consegue percepcionar essa energia, esse todo e simultaneamente o nada, e o transforma em obra criativa, poderá a própria obra ser vista como uma lente que nos permite, a nós público, fazer um movimento de aproximação, de forma a perceber afinal que caos é esse?

[…] O que une as obras “The true face” de Ana Botelho e “Paintball field” de paula roush, aqui apresentadas, e que, nas suas múltiplas acepções, simultaneamente as separa, é a antítese da face humana, em alguns dos inúmeros significados que lhe são atribuídos: a máscara. A máscara, física ou psicológica, – esse outro eu – que permite ao seu utilizador, o mascarado, dissimular a sua identidade, transformando a sua aparência, através da sua evidente função de adaptação social. […][…] “Paintball field”, enquanto jogo de disfarces, ironiza o jogo da guerra e expõe, segundo a autora, “a glorificação da morte implícita na narrativa do jogo”. […] Todos desempenham um papel, numa outra pele e identidade: a de caçadores e de presa, como num conflito real. Por seu lado, a narrativa construída por Ana Botelho em “The true face” utiliza a máscara para discursar sobre um Caos interior, na continuidade de uma reflexão pessoal que a autora havia iniciado, em “Há dias que gosto mais do que outros”, publicado em 2018, e que não versando uma guerra de todos os Homens, aborda um conflito intrinsecamente seu. […]

(EN) Approach Chaos
[with lenses that let you see better what this is]

The word chaos today takes on multiple meanings depending on the context in which is applied. It was first described by Hesiod in the work Theogony, dating from the 20th century.
VIII BC, as the void caused by the separation of earth and heaven from the Cosmos emergint moment. Etymologically comes from the Greek Khaos, which means abyss, void, vast – which opens wide – yet it is used in its current form associated with states of confusion, disorder and disturbance. In physics modern society has the right to a theory that defines it as instability and unpredictability that can happen in rigorously deterministic complex systems.

In the book “What is Philosophy?” Gilles Deleuze and Félix Guattari define three
Dimensions of Thought – Philosophy, Science and Art. For the authors the philosophy
creates concepts, science knowledge and art affects and sensations. They argue that all
Thought is related to chaos and thinking is to give it consistency. The chaos will be,
therefore a virtual that is simultaneously birth and emptying of all possible ways. Thus, and in this context, Art, being a dimension of thought, it will also have a close relationship with chaos.
Western societies today are obsessed with standardization, standardization – with the rejection of what is different, disruptive, heterogeneous – is often a desperate attempt to impose an order to keep us from chaos. But, escaping chaos is impossible, since this is the beginning of everything and is everywhere. According to Deleuze and Guattari “only death overcomes chaos, there is no chaos when there is no
nothing ”and it will be living with the chaos that will come the creative possibilities.

“Art plunges into chaos to extract works, movements that eternalize the virtual, the events, the forces that constitute us ”, according to Deleuze and Guattari. Going often contrary to the normalization and standardization of concepts, Art – and especially contemporary art- seeks provocation, disturbance and disruption, in an attempt to shake this habitual order of things, thus feeding on the chaos as energy, driving force, which allows the artist to create something new. Following writer José Gil “the whole work of art, even when it aims to reproduce as faithfully as possible a bring something new ”and“ close to anything again, the artist’s mental state tends toward chaos. ”
Can then the thought of Nietzsche, that “it takes chaos for a star to sprout”, also apply to
art? Are these forces and chaotic movements then the generators and enhancers of works of art and artists the subjects that materialize them? And if the artist, by his own condition, can perceive this energy, this all and simultaneously nothingness, and turns it into a creative work, can the work itself be seen as a lens that allows us, the public, to make a movement of
approach, in order to realise after all what chaos is this?